
A estupidez e a alienação caminham juntas! Somente o alienado e o estúpido votam em seu algoz, estimam-no e o mitificam. Tomamos como exemplo a metáfora conhecida da abelha e da mosca. Não precisamos explicar a uma mosca que o mel, como alimento, é muito mais saudável do que as fezes, o rejeito. A abelha sabe disso, a mosca, jamais saberá, pois essa é a sua visão, a sua cosmovisão, que retrata sua forma de se inserir, objetiva e subjetivamente, neste mundo.
Quando sabemos que aquilo que dizemos não corresponde à verdade, revelamos uma forma insuportável de alienação. Ela cega, inviabiliza o diálogo, desconsidera os argumentos e torna invisíveis os fatos, pois suas convicções parecem inabaláveis. Somente suas próprias deduções e certezas são capazes de justificar sua visão de mundo e, de sua existência. Assim, não compreendem, não querem compreender as relações mais profundas que estruturam a sociedade, tampouco o conjunto de interesses que se estabelece entre os donos dos meios de produção e da riqueza e aqueles que possuem, essencialmente, a sua força de trabalho e sua capacidade de luta e de resistência.
Somente ao reiniciarmos esse processo de formação humana poderemos cultivar um espírito verdadeiramente humano e construir um modo de vida mais justo, fraterno, solidário e cooperativo. Esses valores poderão despertar uma consciência crítica e transformadora, capaz de nos mobilizar para superar a tirania, a escuridão, a estupidez e a alienação.
Essa é a recuperação do humano que ainda aguardamos e pela qual trabalhamos. Este é o papel da academia, dos cientistas, tratarem de forma séria, profunda o momento que vivemos, um momento delicado, de decisões, mais que eleitorais, são decisões civilizatórias, por isso unir forças intelectuais e pragmáticas de jovens e adultos, numa luta de resistência para estabelecer esse salto qualitativo, tão urgente e necessário, para as questões elementares da vida nesse mundo.
Estamos conscientes de que nos territórios de vida nasce a consciência crítica de onde emerge a prática social transformadora. Isso ocorre na defesa do patrimônio ambiental, na organização comunitária, na economia circular e sustentável na geração de emprego e renda e na construção das inúmeras alternativas econômicas e sociais comprometidas com o bem comum.
Para tanto, nessa caminhada, educamos, conscientizamos e buscamos construir caminhos de lucidez, clareza e criticidade. Temos a capacidade de entender a caminhada humana na construção de civilizações que possam garantir a vida plena das pessoas em seus territórios, em seus países, preservando o que há de mais belo que é a cooperação, a solidariedade entre os indivíduos, garantindo respeito a toda diversidade cultural, étnica, sexual e religiosa. Associado a estas questões temos a compreensão da finitude e limitações planetárias, por isso que, recuperar, preservar, cuidar e educar para e com a natureza torna-se fundamental em nosso tempo. Necessitamos garantir as conquistas sociais, econômicas, ambientais e culturais. Necessitamos de um discurso que alimenta os sonhos, mas também um discurso racional como resposta as demandas diretas do cotidiano de vida. É assim que a emancipação de um povo democrático nasce, substituindo uma consciência subordinada por uma capacidade de pensar, argumentar decidir e agir de forma autônoma.
Seguimos nessa direção para que essa transformação possa, enfim, se tornar realidade no horizonte de nossas possibilidades. Mantemos essa convicção, entendendo, mesmo que tardiamente, esse dia chegará. Afinal, educar, conscientizar é também semear a esperança de que outro mundo é possível.
*Paulo Bassani é cientista social