
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de 80 anos, foi reeleito neste domingo (25) presidente do Brasil, comandando uma virada inédita na história do país ao ganhar as eleições depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno — situação que nunca havia ocorrido.
Ele derrotou Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, na eleição mais acirrada que o país já teve.
A quarta vitória e a despedida das urnas
Esta é a quarta vez que Lula vence a disputa para a Presidência, e será também a última. Ele não pode concorrer à reeleição em 2030 e já declarou que o pleito de 2026 foi sua despedida das urnas.
A virada
A vitória tornou real o sonho de uma militância que, a partir de 23 de outubro, quando pesquisa Datafolha indicou cada candidato com 50% dos votos válidos, passou a acreditar na chance de uma virada — embora tenha ficado apreensiva com novos levantamentos que, na véspera da eleição, indicavam a vitória de Flávio.
Os atos pelo Brasil e o canal de WhatsApp "Exército de Lula" deram gás à campanha. Entre os eventos, um foi considerado histórico: o encontro na Avenida Paulista, em 24 de outubro, que reuniu dois milhões de apoiadores, segundo levantamento da própria campanha de Lula.
O canal chegou a ser suspenso em 11 de outubro pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, e liberado depois pelo ministro da corte eleitoral Floriano de Azevedo Marques.
O primeiro turno e o "choque"
Definida por Lula como a "mais desorganizada" desde 1989, a campanha de primeiro turno foi marcada por intrigas e disputa entre integrantes do próprio grupo.
Edinho Silva, coordenador nacional e presidente do PT, foi acusado por colegas de partido de privilegiar a própria campanha para deputado federal por São Paulo — ele foi eleito — em detrimento da reeleição de Lula, o que ele nega.
A reduzida interação de Lula com lideranças locais nas cidades que percorreu foi apontada como um dos fatores para a "frieza" da campanha.
Apesar da insatisfação, Lula estava confiante de que venceria a eleição já em 5 de outubro. Na ocasião, o abatimento era visível nas feições dos que ocupavam o palco do hotel Renaissance, em São Paulo — entre eles, figuras que também haviam sido derrotadas nas urnas, como Fernando Haddad (governo de SP), Marina Silva e Simone Tebet (ambas ao Senado por SP).
Os números do primeiro turno
Conforme o Tribunal Superior Eleitoral, Flávio recebeu 56.104.268 votos, o equivalente a 47,03% dos votos válidos, e Lula obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%. O total de votos válidos foi de 119.300.788.
A mudança de rota
O susto com a dianteira de Flávio forçou a campanha a mudar de rota e procurar os vitoriosos — fora de São Paulo. Camilo Santana, ex-ministro da Educação e ex-governador do Ceará, assumiu a coordenação da campanha. Rafael Fonteles, governador do Piauí reeleito no primeiro turno, também foi convocado a ajudar na disputa do segundo turno.
"Isso fez com que uma parcela grande do eleitorado que não tinha ido votar entrasse na campanha", disse ao UOL o ex-ministro José Dirceu, durante ato de apoio a Lula na PUC de São Paulo, em 22 de outubro.
André Janones (Rede-MG) se impôs na campanha à revelia de petistas que não gostam de seu estilo agressivo. Paulo Delgado, ex-deputado federal e um dos fundadores do PT, disse à Folha de S.Paulo que o termo "exército" é "patético" e desrespeita as vítimas da ditadura.
A despeito da má vontade de muitos, Janones "pôs o circo de pé" — como disse um petista histórico ao UOL, reservadamente — após tentativas da campanha de criar uma mobilização digital em massa com jovens deputados bem-sucedidos nas urnas.
A camisa da seleção e o antipetismo
A campanha do segundo turno conseguiu algo tido como improvável: associar a camisa da seleção brasileira ao candidato do PT. Em uma das ações, Janones orientou seguidores, em 17 de outubro, a fotografar-se com as cores nacionais e postar a imagem nas redes fazendo o "L" com os dedos — houve ampla adesão.
Lula se elegeu a despeito do sentimento de antipetismo que aflorou em parte do eleitorado desde que o partido passou a ser envolvido em escândalos de corrupção — como o mensalão, em 2005, e os esquemas revelados pela Operação Lava Jato, a partir de 2014.
A campanha de Flávio explorou à exaustão o desgaste da imagem do PT e de Lula, com bordões como "tchau, tchau, PT" e "Lula, ladrão, seu lugar é na prisão".
O legado
Lula já é o segundo presidente que mais tempo ficou no cargo no Brasil. Caso termine o quarto mandato, terá sido 16 anos no poder, contra 18 de Getúlio Vargas, com quem gosta de se comparar.
"Onde minhas pernas não puderem alcançar, eu andarei com as pernas de vocês. Onde minha voz não puder ser ouvida, eu falarei pela voz de vocês", afirmou em ato na Rua Augusta, em São Paulo, às vésperas do primeiro turno.
Lula foi eleito quatro vezes — em 2002, 2006, 2022 e 2026 —, ao passo que Getúlio chegou ao poder uma única vez pelo voto popular, em 1950, e comandou um governo ditatorial entre 1937 e 1945, o Estado Novo. Os dois também voltaram à Presidência após um hiato longe do poder: no caso de Lula, 12 anos; no de Getúlio, 5.
De engraxate a presidente
Durante a campanha de primeiro turno, o reforço ao legado de Lula — com referências constantes ao que realizou nos dois primeiros mandatos — foi considerado excessivo, tendo ofuscado as propostas do presidente para o futuro.
Quando muitos achavam que sua carreira havia chegado ao fim, após ser preso durante a Lava Jato, Lula conseguiu a anulação de sua condenação e voltou à Presidência ao derrotar Jair Bolsonaro em 2022.
O ajuste de rota no segundo turno — quando deu destaque às propostas que pretendia implementar no quarto mandato — imprimiu à sua biografia aquela que, para muitos admiradores, foi a mais emocionante de todas as reviravoltas de sua carreira política.
O que o material consultado não informa
O conteúdo extraído não traz o percentual final nem o total de votos do segundo turno, o horário da confirmação matemática, o número de urnas apuradas ao fim, a transcrição do discurso de vitória nem eventuais declarações de Flávio Bolsonaro sobre o resultado.
Também não há informações sobre a data e o local do pronunciamento de Lula, a posse prevista nem manifestações de governadores, aliados ou líderes internacionais.