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Os 618 votos de Jacarezinho e a eleição que o mapa não explica

O presidente reeleito teve no município sua melhor votação no Norte Pioneiro, onze pontos acima da média do Paraná, e ainda assim perdeu. O detalhe explica mais sobre o resultado de 2026 do que qualquer mapa colorido

Por: Luiz Guilherme Bannwart
26/10/2026 às 10h24 Atualizada em 26/10/2026 às 10h41

Em Jacarezinho, 11.227 eleitores votaram em Luiz Inácio Lula da Silva e 11.845 votaram em Flávio Bolsonaro. A diferença, 618 votos, equivale a 2,68 pontos percentuais, e é o tipo de número que a Justiça Eleitoral registra com precisão e a política costuma arquivar como curiosidade estatística. Não deveria ser curiosidade. Na cidade onde o presidente reeleito teve seu melhor desempenho em todo o Norte Pioneiro, ele perdeu.

O resultado de 2026 não foi decidido por maiorias. Foi decidido por margens. E a margem tem uma propriedade incômoda: ela não aparece no mapa. Flávio Bolsonaro venceu em 330 dos 399 municípios paranaenses, levou o estado com 62,58% dos votos válidos e dominou praticamente toda a região. Em Santo Antônio da Platina, cidade polo da AMUNORPI, fez 63,65% contra 36,35%. Em Cornélio Procópio (AMINOPI), a maior diferença absoluta entre as maiores cidades da região, somou 17.478 votos contra 9.947. Ainda assim, na noite de domingo (25), o Tribunal Superior Eleitoral proclamou a reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos e vantagem de cerca de 4,43 milhões de votos.

A contradição é apenas aparente, e compreendê-la é o que separa leitura política de torcida organizada. Município não vota; quem vota são pessoas, e elas estão distribuídas de forma desigual pelo território. Uma vantagem de 64% numa cidade pequena produz um excedente que não se transfere para lugar nenhum, enquanto uma derrota por dois ou três pontos numa cidade grande custa caro no total nacional. A maioria de Lula se formou menos pela conversão de redutos adversários e mais pela redução do tamanho das derrotas dentro deles.

O Paraná oferece a prova aritmética desse movimento. Lula perdeu o estado, mas cresceu 6,22 pontos, conforme o levantamento do Portal Tá No Site. Crescer onde se perde é precisamente o que constrói uma vitória nacional, porque um ponto adicional em território amigo não altera nada, enquanto um ponto arrancado de território hostil altera o resultado final. É uma política de formiga, pouco fotogênica e decisiva.

Jacarezinho, nesse quadro, é mais interessante do que o título sugere. Os 48,66% de Lula ficaram onze pontos acima da média estadual, que foi de 37,42%. Ainda assim, a cidade esteve mais dividida que o país: 2,68 pontos de margem contra 3,58 no plano nacional. Ou seja, o melhor município do petista na região não funcionou como reduto, e sim como retrato em escala reduzida, e levemente mais tensa, do próprio Brasil. A melhor notícia eleitoral de Lula no Norte Pioneiro é também a prova de que, ali, o país estava partido ao meio.

Há um segundo detalhe, menos confortável para quem gosta de narrativas de virada. As cinco cidades que Lula venceu na região são exatamente as cinco que o primeiro turno já apontava: Congonhinhas (54,18%), Ribeirão do Pinhal (53,06%), Figueira, Jundiaí do Sul e São Jerônimo da Serra. Entre um turno e outro, o eleitorado regional praticamente não se moveu. O segundo turno, no Norte Pioneiro, confirmou mais do que persuadiu, e a conversão de votos nas semanas de intervalo foi quase nula. Os números não dizem por quê, e é preciso resistir à tentação de explicar o voto do outro pela caricatura. Dizem, porém, que a campanha encontrou ali um eleitorado cristalizado, e que a energia gasta em convencer rendeu sobretudo estabilidade.

Vale enfrentar o contraponto mais sedutor, hoje compartilhado pelos dois lados com igual entusiasmo: a tese dos dois Brasis, o do interior produtivo contra o das periferias urbanas, o do agronegócio contra o da economia popular. A tese é confortável porque isenta quem a usa de prestar contas. Jacarezinho a desmente por dentro. Uma cidade dividida em 48,66% e 51,34% não é trincheira, é convivência. Se a fratura fosse geográfica, o mapa bastaria para explicá-la. Não basta: ela corre dentro de cada município, de cada bairro e, com frequência, dentro de cada família. O mapa mostra onde o voto se concentra; não mostra o que o eleitor pensa do vizinho que votou do outro lado.

O contraponto inverso merece a mesma franqueza. Uma vitória de 51,79% não é cheque em branco. Quem governa com 48,21% do eleitorado do outro lado recebeu mandato para negociar, e cada tentativa de interpretar o resultado como autorização para o atropelo vai bater no limite que Jacarezinho exibe em tamanho de bolso: 618 votos separando dois projetos de país numa cidade de pouco mais de 23 mil votos válidos. A margem que elegeu o presidente é a mesma que limita o alcance do seu mandato.

Sobram duas lições, uma para quem governa e outra para a região. Para o governo, o mapa não é o mandato; a maioria se administra no varejo, onde ela é fina e onde cada erro tem preço imediato. Para o Norte Pioneiro, estar do lado vencedor no estado e do lado perdedor no país não reduz peso algum, mas esse peso só se converte em força política real quando vira capacidade de negociação, e não ressentimento. Região que perde a eleição nacional e ganha poder de barganha costuma prosperar mais do que região que apenas se orgulha da própria maioria.

Os 618 votos de Jacarezinho têm tamanho modesto e consequência grande. Em eleições decididas por margem, o lugar que decide é quase sempre aquele onde o candidato perde por pouco, e é exatamente ali que a próxima disputa já começou.

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