Quarta, 12 de Agosto de 2020
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O penúltimo sapateiro

Levei um susto, quando, numa dessas manhãs de inverno...

26/07/2020 10h25
Por: Redação Fonte: João Neto
Arquivo da família
Arquivo da família

Levei um susto, quando, numa dessas manhãs de inverno, ao passar em frente a casa do Seo Antônio Sapateiro, sua oficina de conserto de calçados estava com, pelo menos, dez sacos de 200 litros até a boca de sapatos velhos, enfileirados, esperando o caminhão do lixo para recolhê-los.

Não resisti e desci para saber como estava aquele senhor humilde, tranquilo, de conversa fácil que, por muito tempo, foi o meu sapateiro oficial. Pra minha surpresa o imóvel estava fechado, com aspecto triste.

Perguntei ao rapaz da oficina em frente sobre Seo Antônio, e ele disse que meu sapateiro havia falecido em janeiro, na vizinha Jacarezinho, por problemas cardíacos. Disse ainda que a família estava limpando sua oficina de consertos, fazendo os descartes devidos, por isso aquela quantidade de sacos abarrotados de sapatos velhos, entre outros entulhos.

Percebi que a maioria dos sapatos estava consertado. Por curiosidade abri uma das sacolinhas, e dentro do calçado observei a data e o valor do conserto: 19 de novembro de 1990, valor NCZ$ 13,00 (treze cruzados novos). Alguém deve ter levado pra consertar e “esquecido”, pensei comigo!

Ali na minha frente estava um pouco do trabalho de 60 anos daquele trabalhador, cumprindo com dignidade o ofício de sapateiro, 45 anos só na rua Artur Franco.

Antônio de Oliveira, 87 anos, era um dos últimos sapateiros da cidade, contemporâneo do Tico Sapateiro e do Grande Altevir.

Com a subida de Seo Antônio para o plano espiritual, nossa cidade perdeu o penúltimo oficial de sapataria, salvo engano, só ficou o Zé Sapateiro, lá da Vila Claro. Lembrando que o Altevir aposentou-se recentemente.

Antônio, com seu jeito simples, era a própria imagem do sapateiro raiz: sempre sentado atrás de uma mesinha baixa - cheia de tachinhas, avental de couro, pé de ferro no colo e um martelinho orelhudo na mão. No ambiente, além do radinho ligado, alguns canários estabanados marcavam a cadência de um cotidiano feliz.

Colhendo informações com familiares do Seo Antônio descobri que ele era irmão do Zé Lino da Auto Peças Beira Rio (estava explicada a bondade, honestidade e o sangue trabalhador - o DNA de gente de bem).

Era casado com Dona Odete, tiveram os filhos Mara e Marcelo, além dos netos Júnior, Thaís e Liliane. 

O que incomoda é que eu estava devendo uma visita pra ele, desde o ano passado.

Era um sujeito de boa prosa e havia tempos que não o via, entrou a pandemia e fui adiando minha visita, mal sabendo que ele já estava repousando ao lado de Deus.

O pior é saber que, por outras prioridades, a gente acaba se esquecendo das amizades sinceras, das conversas verdadeiramente agregadoras. 

É a correria da vida, às vezes deixamos para dar abraços urgentes tarde demais!

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